terça-feira, 12 de julho de 2016

Direito à memória: indígenas na periferia e dificuldades na autodeclaração.


Muitas e muitos de nós da periferia e centros urbanos temos nos deparado com uma realidade de e negação de autodeclaração étnica ainda pouco entendida e tida como importante pelos diversos movimentos sociais e indenitários em que tenho contato. Muitos de nós não-brancos e não afrodescendentes não temos espaço para levantar os aspectos do etnocídio indígena no Estado Brasileiro, no campo, na floresta e na periferia e centros urbano, e ficamos entre apenas duas opções de identidade étnica: branco e afrodescendente. Desde de crianças muitos de nós ouvimos que tivemos nossas ancestrais foram pegas a laço (sequestro seguido de cárcere privado, escravização e estupro) ou que temos índios na família, mas mesmo assim nossa identidade indígena é constantemente negada inclusive pela esquerda por não estarmos vivendo de forma tradicional e dentro de territórios indígena, e que desta forma não sofremos opressão que uma pessoa indígena sofre. Mas é necessário dizer que a opressão da falta de acesso à memória e histórias de nossas etnias é também opressão e está dentro do projeto capitalista, e se muitos de nós não sabemos a nossa etnia isto é prova de que este projeto capitalista de hegemonia cultural tem sido efetivo. Gostaria de levantar algumas barreiras que nós descendentes de indígenas da periferia temos tido para que nem mesmo o nome da nossa etnia indígena chegue ao nosso conhecimento.
Gostaria de começar com um resgate histórico de como o Estado fez um grande esforço para que os povos indígenas não estivessem em seus territórios tradicionais e para que hoje, não estar em terras tradicionais, desse a este mesmo Estado um critério para dizer que os povos são “falsos índios” por não estarem em suas terras tradicionais e sagradas.
Genocídio, miscigenação, etnocídio e escravização dos povos indígenas.
1500-  No documento “ A carta de Pero Vaz de Caminha” em muita passagem este analisa os órgãos genitais de homens e mulheres para ser relatado aos Rei, e descreve que muitos deles estavam com moças e mulheres dos povos originários. Estes relatos merecem ser encarados como estupros e abusos sexuais de crianças, adolescentes e mulheres que marcaram já os primeiros contatos entre invasores e povos originários. Desta forma, fica sendo um problema ter como critério a não miscigenação das etnias para a autodeclaração. Pode-se comparar com culpar a vítima por estupro que esta sofreu. Este foi o início do processo de constituição miscigenada do povo brasileiro.
1562 – Padre José de Anchieta descreve como a troca de objetos infectaram com doenças os povos tradicionais (doenças que ele afirma ser os justos juízos de Deus) e houve 30.000 mortes.
A divisão do território em capitanias hereditárias e início da exploração econômica do território, juntamente com a escravização dos povos originários. Devemos entender que eram neste período aproximadamente mais de mil etnias, a resistência destas etnias à catequização e escravização era diferente de acordo com a cultura. Esta ideia de haver o comportamento do índio brasileiro em geral, é etnocída, é matar a diversidade cultural.
A escravidão em que foram submetidos os povos originários do Brasil (cujo nome originário era Pindorama) e os povos africanos, que era a estrutura econômica do Brasil, os impondo outro modo de vida e outra relação com o trabalho, teve um papel importante no etnocídio destas culturas, porém houve resistência cultural em quilombos por parte de indígenas e africanos como uma alianças entre os povos, resistência esta, também, anticapitalista.
A  “(...) expropriação das terras tradicionais indígenas que veio a se consolidar em meados da década de 1940 com a colonização do oeste do país e veio se consumar com a ditadura civil-militar, que se incumbiu de desenvolver  como política de estado a grilagem de terras, a tortura e o assassinato dos povos indígenas.”  A “Marcha para o Oeste” foi responsável por diversos contatos com populações indígenas e favoreceu a invasão, e titulação de terras griladas , uma política já bastante adotada em governos estaduais. No Mato Grosso do Sul por exemplo, neste período foi feito uma espécie de reforma agrária com as terras de diversas etnias do povo Guarani.
1960 – 1960 – governo do Paraná titula terras indígenas para empresas do oeste. Interesses econômicos pressionavam a o avanço das fronteiras agrícolas sobre terras indígenas.  SPI (Serviço de Proteção ao Índio) legaliza invasões por meio de contratos de arrendamentos .
1963 – Genocídio contra os Cinta Larga, conhecido como Massacre do Paralelo 11.  Desde de 1950 o povo Cinta Larga já tinha sofrido diversos ataques de empresas mineradoras e coloniais da região e seringueiros.  Também há relatos de envenamentos  de alimentos e brinquedos com vírus de gripe, sarampo e varíola, além de assassinatos. Há relatos até hoje destas práticas.


O período da Ditadura Civil-Militar
Sendo o modo de vida dos povos originários um modo de vida que não se integra ao desenvolvimento econômico capitalista e de mercado, fica claro que o mesmo Estado que perseguiu e torturou movimentos anticapitalistas e de direitos humanos por atrapalhar os seus planos de desenvolvimento econômico nacional, iria agir com tamanha crueldade contra povos indígenas que para eles também atrapalhavam os planos desenvolvimento econômico capitalista do seu governo. Desta forma, os crimes da ditadura contra os povos indígenas também eram crimes políticos.  O povo indígena resiste politicamente desde a Revolução dos Tamoios, no séc. XVI.  Segundo o Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, em 1968, ano do AI-5, a perseguição a lideranças indígenas foi mais agressiva, e foram criadas cadeias indígena com relatos de trabalho escravo. Terras indígenas eram consideradas regiões com vazio populacional e econômico, ignorando a humanidade dos povos indígenas. A Transamazônica cortava terras de 29 etnias indígenas. A Funai, fez a política de contato para  “atração e remoção de índios de seus territórios em benefícios de estradas e da colonização pretendida.”  Até os dias de hoje há relatos de cadeias irregulares de indígenas.
Não é razoável acreditar que depois de 5016 anos de resistência haja a mesma disposição das etnias indígenas em se autodeclarar destemidamente sua etnia ou viver em território tradicional. Mesmo assim, há povo ques têm feito as retomadas dos territórios e também retomadas culturais como a língua, medicina, arte e tradições em geral. O racismo contra os povos indígenas não tem relação com aparência física, mas sim com cosmovisão de mundo que tudo que nesta sociedade tende a oprimir.
Etnocído em meio urbado
Sabemos que a formação das favelas no Rio e São Paulo, foram impulsionadas em sua segunda onda – 1940 - 1970, pela migração da população que vivia em outras regiões agrícolas do Brasil, e sua maioria trabalhava na roça.  Baseado neste levantamento histórico, relatos e árvores genealógicas de moradores das periferias, podemos provar que o que é chamado de pardo hoje é em grande parte descendente destes povos indígenas que fugiram de toda esta opressão do Estado e tiveram que viver empobrecidos nas periferias das cidades. Se fizermos um resgate nos costumes destas famílias vamos encontrar medicina indígena com ervas, tabaco, samba de coco, curandeiras e curandeiros, parteiras e etc. Traços culturais que em contexto urbano, são tidos como simpatias e feitiçarias abomináveis para Deus segundo os evangélicos (os novos catequizadores), e que infelizmente proíbem em nome de Deus inclusive os chás de ervas. Neste contexto, eu que sou indígena, nascida em uma favela, e o ancestral mais antigo citado pela minha família do lado materno, meu tataravô, vivia na mata em Pernambuco e dançava samba de coco, só tenho acesso a fragmentos desta cultura indígena que foi demonizada. Minha bisavó, que poderia me contar mais da minha ancestralidade indígena é evangélica desde os 14 anos. Mesmo assim, identifico traços da cultura indígena em minha família, e gostaria de me autodeclarar indígena, também pela história de resistência que foi negada a mim, mas não será para os meus filhos. Saber o nome da etnia é um desafio que com pesquisa e disposição é possível ainda. 
 Afinal, para quê a identidade indígena nos centros urbanos?
Porque quero ter acesso à ciência, conhecimento, e modo de vida da minha etnia. Se eu como descendente quero me autodeclarar, existem diversos motivo: o acesso a políticas pública de educação tando para ter acesso à língua, e conhecimento tradicional, ou porque o sujeito foi empobrecido pela expulsão , estigmatização e escravidão dos ancestrais e quer ter acesso a cotas, quanto porque quero e desejo me aproximar da cultura porque me identifico e quero escolher este modo de vida porque julgo melhor em comparação ao modelo eurocêntrico e capitalista.
Porque sem a autodeclaração não terei acesso à aplicação da lei 11.645. A diretoria de ensino, só dá formação para professores da rede estadual de ensino caso haja indígenas ou quilombolas autodeclarados naquela unidade escolar, e mesmo assim a autodeclaração pode ser questionada caso o território em que a unidade escolar esteja não for próxima ou dentro de terra indígena demarcada, o que não é algo fácil de se concretizar nem onde vivem povos de forma tradicional, quanto menos em contexto urbano. Isto causa agravamento dos preconceitos que a escola ainda perpetua sobre os indígenas. As culturas dos povos indígenas são centenas e como ciências tão importantes quanto a europeia para a humanidade, quanto mais para os seus descendentes, o que poderia gerar uma retomada cultural importante para uma parcela da população que vive a margem da sociedade nas periferias e não tem acesso ao conhecimento sobre sua ancestralidade. Acreditamos que estes conhecimentos poderiam trazer novas perspectivas de resistência cultural e política em relação a dominação ideológica capitalista.
As ciências indígenas têm sido estudadas pela Nasa e indústria farmacêutica e não pelos descendentes dos povos. Ao invés disso, o que nós descendente de indígenas não declarados temos acesso apenas ao etnocídio que o avanço de igrejas pentecostais causam, chamando toda a medicina dos povos indígenas de simpatias, que são pecado e portanto proibidas. Estas igrejas estão em cada esquina das periferias, doutrinando a população a deixar estes costumes para trás e evangelizar as benzedeiras e benzedeiros, proibindo seus fiéis inclusive de tomar chás. Tudo isso é incluído na categoria “macumba” que é demonizado, promovendo o etnocídio. Penso que pode ser provavelmente uma das causas de, no caso da minha família, até minha bisavó ninguém se declarava indígena, pois ela era evangélica desde os 14 anos. Porém sei que sou descendente de indígena porque meu tataravô era o outro, o que era o indígena, e é com essa memória que vou ir atrás da minha ancestralidade, porque me identifico mais com este outro, do que com os que foram copitados pela cultura eurocêntrica.
Quando o Estado quer determinar os povos indígenas como apenas aqueles que vivem em território demarcado, todo o processo de expulsão dos povos, etnocídio, escravização e genocídio num processo de mais de 500 anos - e sem pausa - é ignorado.  Precisamos levar em consideração a migração de povos de todo o Brasil para as periferias dos centros urbanos, principalmente Rio e São Paulo, por conta de, entre outros fatores, a exploração que sofreram em suas regiões, causadas por históricas expansões das fronteiras agrícolas e grilagem de terras indígenas e quilombolas.

Referências:
http://justificando.com/2016/05/12/a-denuncia-de-um-advogado-sobre-a-situacao-dramatica-dos-indigenas-frente-a-repressao-de-fazendeiros/

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Te Quiero

Tus manos son mi caricia
mis acordes cotidianos
te quiero por que tus manos
trabajan por la justicia

Si te quiero es por que sos
mi amor, mi complice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos

Tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada
te quiero por tu mirada
que mira y siembra a futuro

Tu boca que es tuya y mia
tu boca no se equivoca
te quiero por que tu boca
sabe gritar rebeldía

Si te quiero es por que sos
mi amor, mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos

Y por tu rostro sincero
y tu paso vagabundo
y tu llanto por el mundo
por que sos pueblo te quiero

Y por que amor no es aureola
ni cándida moraleja
y por que somos pareja
que sabe que no esta sola

Te quiero en mi paraiso
es decir en mi país
la gente viva feliz
aunque no tenga permiso

Si te quiero es por que sos
mi amor, mi cómplice y todo
y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos
somos mucho màs que dos



(Benedetti)

sexta-feira, 30 de março de 2012

Canção para um bem- te-vi...

Sentirei saudades...

"Bem te vi, bem te vi
Andar por um jardim em flor
Chamando os bichos de amor
Tua boca pingava mel
Bem te quis, bem te quis
E ainda quero muito mais
Maior que a imensidão da paz
Bem maior que o sol
Onde estás?
Voei por este céu azul
Andei estradas do além
Onde estará meu bem?
Onde estás?
Nas nuvens ou na insensatez
Me beije só mais uma vez
Depois volte prá lá."

(Jardim da Fantasia - Paulinho Predra Azul)

sábado, 24 de março de 2012

A dor a dor a dor a dor...

"...depois que você partiu o mel da vida apodreceu na minha boca..." (Tom Zé)

Esperando as coisas acontecerem
olho o céu e as estrelas
olho no olho do céu, com remelas e cheio de pregas.

Esperando o mundo mudar
durmo, acordo e me fadigo
na ilusão de acordar bem longe daqui.

Esperando uma ligação que me faça sorrir como outrora
esqueço que nosso tempo já passou
que a vida mudou e que não somos mais dois (ou nunca fomos).

Esperando chegar a coragem de mudar
me perco e desconverso
e em cada conversa resignifico o que já está obsoleto.

Chegará o dia em que vou voar como uma gaivota
construir como uma formiga
e me sentir como uma tigresa...

Enquanto este dia não vem
vou cantar a desilusão
implorar a revolução
e seguir entendendo o porque ando sempre na contramão.

Vai... vai viver o que tem pra viver...
Vem... se quiser realmente entender...
Fui... ainda com medo de voltar mas na certeza que nunca tive tão poucas razões pra ficar...

Cemitério de sonhos é o que sou, e desde sempre a melancolia tem sido o adubo da minha mente.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Para quem ainda vier a me amar

Um amigo me mandou esta poesia que muito vai de encontro ao meu texto anterior que se chama "Pra não dizer que não falei de amor". Gostei tanto que estou postando aqui =). A poesia abaixo é de Roberto Freire.




Para quem ainda vier a me amar




Quero dizer que te amo só de amor. Sem idéias, palavras, pensamentos.
Quero fazer que te amo só de amor. Com sentimentos, sentidos, emoções.
Quero curtir que te amo só de amor. Olho no olho, cara a cara, corpo a corpo.


Quero querer que te amo só de amor. São sombras as palavras no papel.
Claro-escuros projetados pelo amor, dos delírios e dos mistérios do prazer.
Apenas sombras as palavras no papel.


Ser-não-ser refratados pelo amor no sexo e nos sonhos dos amantes.
Fátuas sombras as palavras no papel.
Meu amor te escrevo feito um poema de carne, sangue, nervos e sêmen.


São versos que pulsam, gemem e fecundam. Meu poema se encanta feito o amor
dos bichos livres às urgências dos cios e que jogam, brincam, cantam
e dançam fazendo o amor como faço o poema.


Quero a vida as claras superfícies onde terminam e começam meus amores.
Eu te sinto na pele, não no coração. Quero do amor as tenras superfícies
onde a vida é lírica porque telúrica, onde sou épico porque ébrio e lúbrico.


Quero genitais todas as nossas superfícies.
Não há limites para o prazer, meu grande amor, mas virá sempre antes,
não depois da excitação.


Meu grande amor, o infinito é um recomeço.
Não há limites para se viver um grande amor.
Mas só te amo porque me dás o gozo e não gozo mais porque eu te amo.


Não há limites para o fim de um grande amor.
Nossa nudez, juntos, não se completa nunca, mesmo quando se tornam
quentes e congestionadas, úmidas e latejantes todas as mucosas.


A nudez a dois não acontece nunca, porque nos vestimos um com o corpo do outro,
para inventar deuses na solidão do nós. Por isso a nudez, no amor, não satisfaz nunca.
Porque eu te amo, tu não precisas de mim. Porque tu me amas, eu não preciso de ti.


No amor, jamais nos deixamos completar.
Somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários.
O amor é tanto, não quanto. Amar é enquanto, portanto. Ponto.

Pra não dizer que não falei de amor

Hoje tenho muita dificuldade em falar de amor.
Visto que o amor romântico é uma farsa que nos prende na acomodação de pensar que teremos alguém que irá ser o companheiro certo para ajudar a suportar as angústias que este mundo tem.

Todas as poesias de amor e as músicas bregas que faz parte do meu repertório, hoje só me afasta da realidade concreta de que as pessoas se aproximam das outras principalmente para suprir determinadas necessidades de cada momento da vida.

A tentativa de se apaixonar por certas coisas em detrimento de outras que são ilusórias é uma missão difícil. Mas, mais difícil ainda é superar a decepção de um amor platonico que só traz ciumes e desilusão, transformando o amor em algo que traz sofrimento e dor.

Eu, mulher, alvo de sentimentalismos baratos no decorrer da história, fui criada e domesticada, temperada com misticismos e poesias para que eu ficasse passiva e conformada por todo esse tempo, quero hoje romper com minha concepção de amor oportunista.

Há de haver poesia no amor livre. Não estou falando de sexo apenas. Estou falando de um amor que não se diferencia do amor erótico, fraternal e filial. Um amor que não se esgote na família burguesa nuclear.

Um amor que nós propomos, que nós sonhamos, organizamos como queríamos, e não conseguimos seguir em frente. Por quê? Ainda estamos acreditando que a dois é mais fácil?
Será que não sabemos entender que um amor é diferente do outro e a paixão é um desejo louco pelo novo?

Todas as pessoas que eu amei, entre parceiros sexuais, parentes, amigos e companheiros, foram amores verdadeiros. O ciúme do seu corpo é apenas porque não sabemos amar de forma livre. Quero teu corpo porque te amo, e por te amar não te privo e só quero te possuir em tal momento, e te possuir todo o tempo é contra os meus princípios. Princípios que me censuram por te querer pra mim, porque se não és meu não te tenho...

Assim, sigo o meu caminho solitário, mesmo sabendo que acompanhada nessa empreitada da "não propriedade" é mais fácil.

Ouvirei música brega, pensarei em várias pessoas como exercício. Me apaixonarei por seres humanos lindos, e aprenderei um pouco mais com cada um. Farei amor com quem tiver amor pra dar, só pra celebrar... um gole de cachaça.

Luli


Linda.
Um amor verdadeiro que me enchia de alegria quando em minha casa eu chegava, cansada e alucinada e você senteva no meu colo com aqueles olhinhos redondos querendo só um pouquinho de mim.

Gata.
A mais linda da viela, todos a olhavam, todos a queriam, me orgulhava da sua sutileza e da sua inconformidade quando eu demorava um pouco mais pra voltar.

Grávida.
Me deixou preocupada como uma solteira que vai ser vovó.

Triste.
Eu fiquei quando voltei naquele domingo confuso e nunca mais te vi.

Em pensar que em menos de um ano eu te amei tanto, desde o dia que te trouxe na bolsa.
Em pensar que um pedaço do meu dia e da minha noite desapareceu junto com você e só te tenho em meus sonhos a me lembrar que sem você minha solidão fica cada dia mais pesada, mas um dia isso vai passar.

Luli, está hoje em um lugar melhor? Se estiver, em qualquer lugar que seja este, vai voltar mesmo se for quando eu te encontrar em outro olhar.


Uma homenagem a minha querida gata Luli que em Janeiro de 2012 partiu e nunca mais voltou...

domingo, 19 de junho de 2011

Aos 25 anos eu quero...

... me preparar para os 27
... identificar meus erros
... companheirismo
... desbloquear aquele "chip"
... amor livre e sincero
... valorizar cada vez mais os pequenos momentos
... lembrar com carinho de quem foi e não vai mais voltar

sábado, 26 de março de 2011

Sem ter sentido

Vivo a colecionar mensagens de texto
Dias efêmeros que deixam vazio
Numas noites frias regadas de álcool e romances sem flertes
Em um mudo diálogo entre o passado e o futuro

Ando com um olhar parado
Não olho pro lado, não tenho interesse
Ando sozinha num cemitério de sonhos
Com muitos jazidos, sem flores e visitas

Neste deserto o tempo é camelo
Juntando palavras, criando argumentos
pra justificar o que não consigo:
encontrar em outros corpos
o menor sentido

quarta-feira, 16 de março de 2011

Lamento Urbano

I
Chove em São Paulo
Muitos carros nas ruas
Ônibus lotados
Vidros fechados
Vidas sem ar
Sempre a trabalhar
II
Pessoas em choque
Em breve ficarão sem lar
Pais de família não dormem
Onde protegerei meus filhos?
Como defenderei meu lugar?
III
Cotação da bolsa
Economia crescente pra quem?
Homens engravatados dormem sem enchentes
E a vida da gente não interessa a ninguém.
IV
Violência S.A.
Olhe para o lado pra perceber
Por que tanto assalto?
Quem foi primeiro desapropriado?
É gente cansada de tanto sofrer.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Tudo isso...

Tudo isso
Toda essa massa de coisas
Toda essa fumaça de noites em claro
Essas conversas sem roupas
Tudo isso

Todo esse acesso ao teu corpo
Todo mistéio intrínseco
Toda angústia do medo de não ter mais
Tudo isso

Toda beleza do falo
É fálico!
Nessa linguagem insisto
Como quero
Tudo isso

Toda beleza do ato
Um hiato
Entre o caos e o seu riso
Tudo isso

Querer mais disso.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Do osso ao caos

Se você quer saber por que prefiro fugir,
é porque tudo que passei ninguém consegue ouvir.
Nunca é fácil carregar sua família nas costas,
e não lembrar da infância - eu bloqueei na memória

Todos os traumas coletivos eu vivi desde cedo
Por isso falo tão serena o que te daria nos nervos.
Chega uma hora que a gente pára para pensar:
será mesmo que um dia eu aprendi a amar?

Para mim amor é abrir mão de princípios morais
pra dar comida pros filhos, mesmo perdendo a paz.
Gerações e gerações de vida sobrevivida
Eu sou fadada a ser a salvação da família

O foda é mesmo assim pensar o por quê passo por isso
Isso aumenta o meu ódio contra o capitalismo
Não quero ser rica, não posso e não tenho essa ambição
Eu só quero ter paz mesmo sendo ilusão.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Terça-Feira

Eram quatro da manhã. Carolina estava em uma parada de ônibus caminho para a capital.
Ela fumava o único cigarro que o tempo lhe permitia. Pensativa e passiva às circunstâncias que o tempo lhe impôs.
Neste momento, Julio bebia aflito em uma balada da Rua Augusta, aflito por saber que algumas horas adiante iria por à perder uma das poucas chances que a vida lhe deu. Tudo porque o tempo não foi generoso para com ele.

Abatida, com o coração no bolso lateral da mochila, Carolina chega ao Terminal Rodoviário da Barra Funda, como se estivesse caminhando contra gosto à forca. Caminha até a saída mais próxima, e sobe a escada rolante. Enquanto tenta fechar o botão defeituoso da sua blusa, olha para cima e vê ao fim da escada Julio, quase irreconhecível de tanta tristeza. Ela desvia o olhar, respira, e tenta manter a calma.

Tudo o que conversaram no caminho para o apartamento no marco zero da cidade, foi sem importância, o riso era disfarce, e nada mais fazia sentido. Sem conseguir comer, ela pede um café amargo na lanchonete da esquina. Julio, ainda meio bêbado por não ter dormido naquela noite e nos dias anteriores, observa.

Chegando ao apartamento os dois preferem tentar dormir um pouco. Abraçados, Julio dorme e Carol fica acordada, só se preocupando em sentir o que poderia ser o ultimo abraço deitada naquele colchão e naquele apartamento estranho que originou a admiração dos dois pela terça-feira.

Cansada de esperá-lo acordar e tentando prolongar a espera ao mesmo tempo, Carol resolve caminhar sozinha pelo centro da cidade, na esperança de comprar algo pra comer, pois se não o estomago não aceitaria mais um cigarro, vital naquele momento.

Ao voltar ela o acorda, mas como fosse mais forte que ela, se deita ao lado dele. Esta proximidade tão prazerosa todos os dias que estiveram juntos – sem nenhuma exceção – agora trazia uma agonia profunda. Ele precisava terminar o melhor relacionamento que já teve, por culpa das marcas que o tempo deixou e a falta de experiência com o amor que o tempo não o presenteou. Tinha um profundo medo de não conseguir dar a ela tudo que ela merecia. Se esqueceu que com ela seria mais fácil superar qualquer coisa. Ela sabia que nada poderia fazer a respeito e estava magoada por ele não acreditar que ele merecia todo amor que ela queria lhe dar, e por isso pôs tudo a perder.

Durante a conversa final, nada fazia sentido. Enquanto os dois choravam juntos, como sempre estiveram, a vontade de tocar um ao outro ainda era predominante. No corpo de Julio ainda havia as marcas dos dentes de Carol em seu ombro. Ao olhar para ele, ela só pensava como seria nunca mais o morder de tanto tesão. Julio chorou ao olhar seu ombro dias atrás...

Ele não conseguia olhar aquela boca sem pensar em a beijar, estava fazendo um grande esforço. Carol não tinha nada a perder, e não pensava em nada, só em prolongar estar com ele mesmo se fosse a ultima vez. Ela não o chingou, e nem saiu e bateu a porta. Apenas quis sentir o calor daquelas mãos novamente.

Ao falarem o quanto foi bom e intenso o melhor namoro que tiveram, não encontraram um dia se quer que estiveram juntos que não foi fantástico. E não havia. O ultimo dia tinha que ser inesquecível igualmente. Não queriam brigar, e sim relembrar o quanto tudo foi bom. Em pouco tempo após algumas lagrimas riram de si mesmos, por não conseguirem brigar de tanto amor.

Carolina acariciava a barba de Julio, enquanto lembrava-se da expressão mais bonita que já viu: a dele em um determinado dia daquele verão, com a luz acesa e ela por cima. Ele também olhava para ela, sentindo aquela paz que podia resolver todos os problemas instantaneamente.

Resolveram se entregar pela ultima vez, pois sabiam que seria bom. Queriam-se mais que nunca. Iam deixar pra sofrer depois do adeus. Uma mordida nova no ombro de Julio. Esta ultima doeu mais em Carol...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Outra vez!

Você foi...
O maior dos meus casos
De todos os abraços
O que eu nunca esqueci

Você foi...
Dos amores que eu tive
O mais complicado
E o mais simples pra mim

Você foi...
O melhor dos meus erros
A mais estranha história
Que alguém já escreveu

E é por essas e outras
Que a minha saudade
Faz lembrar
De tudo outra vez.

Você foi...
A mentira sincera
Brincadeira mais séria
Que me aconteceu

Você foi...
O caso mais antigo
E o amor mais amigo
Que me apareceu

Das lembranças
Que eu trago na vida
Você é a saudade
Que eu gosto de ter
Só assim!
Sinto você bem perto de mim
Outra vez...

Me esqueci!
De tentar te esquecer
Resolvi!
Te querer, por querer
Decidi te lembrar
Quantas vezes
Eu tenha vontade
Sem nada perder...

Ah!
Você foi!
Toda a felicidade
Você foi a maldade
Que só me fez bem
Você foi!
O melhor dos meus planos
E o maior dos enganos
Que eu pude fazer...

Das lembranças
Que eu trago na vida
Você é a saudade
Que eu gosto de ter
Só assim!
Sinto você bem perto de mim
Outra vez....

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Terça-feira.

Finalmente resolvi postar...
A vida é mesmo uma caixa de surpresas. As pessoas e seus conflitos me deixam aflita. Em meio de um mar de dificudades, encontro repolso nos braços de alguém. Alguém que também tem um mar de dificuldades e crises. As crises do outro me deixam em crise, mas será que é recíproco? Como saber?
Os relacionamentos são trocas e doações ao mesmo tempo. A voltade de estar junto bagunça a vida e o cabelo.
As vezes você quer entrar dentro do outro, não só do corpo e sim dos sentimentos.
Os dois também se misturam.
As coisas vão se delineando pouco a pouco, e as vezes o medo cresce quando as coisas ficam mais racionais. Saber que as coisas boas podem ter um fim, é muito difícil. Não importa quanto tempo demore pra isso acontecer, um mês ou anos, é sempre dolorido. Se termina antes de se consolidar, a dor é diferente, pois você sempre pensa o que poderia ter sido.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Será que vai dar certo?

O amor é um jogo de forças. Ganha quem tiver a química mais parecida com a sua.
Mas esse parecido é relativo demais... existem químicas mais parecidas dependendo do momento.

Mas quando acho essa química, só quero ela até me esbaldar. Hoje, consigo entender porque as pessoas casam e/ou são monogâmicas... é pura energia sexual. Bom, acho que o jeito que isso funciona muda de pessoa para pessoa.

A sua química, os elementos que compõe você, sua energia, ou o que você quiser chamar isso, é que vai definir o tipo de relacionamento que vai te fazer feliz. Moda não é o parâmetro.
Se nisso as pessoas combinarem, já é um passo dado. Mas não é só isso.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Você já me esqueceu

Vem
Você bem sabe que aqui é o seu lugar
E sem você consigo apenas compreender
Que sua ausência faz a noite se alongar
Vem
Há tanta coisa que eu preciso lhe dizer
Quando o desejo que me queima se acalmar
Preciso de você para viver
É noite amor
E o frio entrou no quarto que foi seu e meu
Pela janela aberta onde eu me debrucei
Na espera inútil e você não apareceu
Você já me esqueceu
E eu não vejo um jeito de fazer você lembrar
De tantas vezes que eu ouvi você dizer
Que eu era tudo pra você
Você já me esqueceu
E a madrugada fria agora vem dizer
Que eu já não passo de nada pra você
Você já me esqueceu
Você já me esqueceu
Você já me esqueceu
É noite amor
E o frio entrou no quarto que foi seu e meu
Pela janela aberta onde eu me debrucei
Na espera inútil e você não apareceu
Você já me esqueceu
E eu não vejo um jeito de fazer você lembrar
De tantas vezes que eu ouvi você dizer
Que eu era tudo pra você
Você já me esqueceu
E a madrugada fria agora vem dizer
Que eu já não passo de nada pra você
Você já me esqueceu
Você já me esqueceu
Você já me esqueceu
Você não veio amor
Você já me esqueceu

Roberto Carlos
composição: Fred Jorge

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Alvorada

A Lua foi minha cumplice e minha rival.
Eu a amei e a vi parti.
O orvalho tocou meu rosto, me congelou e me renovou.
Quando achei que não restou mais nada para eu admirar,
me vi sozinha e brilhando como a alvorada.

cris roseno


(Agora é a vez de dizer: e que venham as boníssimas novas!)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Atrás da Porta

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei, eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teu peito, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua


Composição: Francis Hime/Chico Buarque

domingo, 5 de setembro de 2010

Caverna

Eu me perdi também.
Deslocada no mundo, estou perdida.
O que faço agora
se não posso mais ser quem eu sou?

Pode ser que nunca fui eu mesma.
E arrastá-te-me para uma caverna
onde o fogo do meu desejo
me faz ver apenas sombras e espectros
do meu mais novo e velho sonho.

Sempre tive medo de ser desnuda.
De descobrirem meus segredos
e perceberem que não sou a Monalisa
e muito menos, a garota de Ipanema...
... Teresa da praia...

Sim meu bem,
só você sabe que não sou bossa,
apesar de nova.

E por isso me perdi.
Quero me esconder,
me reinventar.

Pois não gosto de me apaixonar a esmo...

Por que não?
Mas, por que sim?

O amor não é funcional.
E foi isso que aprendi

a Fórceps.

Cris Roseno